terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Cesárea no Brasil x Parto normal nos EUA

Cesárea no Brasil x Parto normal nos EUA

Morando nos EUA e participando do grupo de partners dos estudantes de Wharton, eu ouvi histórias terríveis de mulheres que tiveram seus filho aqui. "Ficou vinte e poucas horas em trabalho de parto" "O nenê dela nasceu roxinho" "Ficou vinte horas em trabalho de parto complicado e só depois fez cesárea" e etc e etc. Logo após a notícia de que eu estava grávida e a possibilidade de a minha nenê nascer aqui, comecei a ficar preocupada com a saúde dela e também com a minha durante o parto (que eu queria que fosse normal), pois desconfiava que algo estava errado por aqui. 

Numa visita ao Brasil, fiz uma das consultas pré natal com meu médico de lá e perguntei como era o protocolo de parto normal no Brasil. Ele respondeu que o esperado é a mulher dilatar 1 cm por hora e que geralmente o máximo esperado é doze horas para que o bebe nasça, e a partir daí, cesárea. De doze horas para vinte horas é muita diferença. Preocupadíssima de ter um parto normal arrastado que colocasse a saúde do meu bebê em risco, cheguei até a pensar em só voltar para os EUA depois que ela nascesse.

Porém, sabendo dos altos índices de cesáreas desnecessárias no Brasil (>85% na rede privada) e apesar das histórias que ouvia aqui nos EUA, não conseguia entender porque eu e as minhas colegas brasileiras daqui víamos o parto normal como algo tão arriscado. Logo aqui, um país desenvolvido, com os melhores hospitais, avançadíssimo em pesquisa médica e referência mundial. Eu como profissional da área da saúde, sei muito bem que os protocolos aplicados nos hospitais do Brasil são todos baseados nos usados aqui.

Ao voltar para os EUA conversei muito com meu médico sobre isso. Ele me explicou sobre como eles conduzem o parto normal aqui nos Estados Unidos, e que ao primeiro sinal de necessidade, a cesárea não seria questionada. Fiquei aliviada, confiante e feliz, pois sabia que, querendo parto normal, então eu estava no lugar certo, onde as chances de conseguir eram muito maiores. O que acontece é que a conscientização sobre o parto normal é tão grande que então o medo da cirurgia faz com que as mulheres, mesmo quando começam a ter alguma complicação, neguem a cesárea. Fui atrás das minhas colegas dessas histórias que ouvia e elas me confirmaram: "insisti no parto normal contra a equipe, o que só agravou o problema, quase coloquei a saúde do meu filho em risco".  

Além disso, meu médico me explicou que na teoria a mulher dilata um cm por hora, mas na prática não é bem assim. Geralmente os primeiros centímetros levam horas ou mesmo uma semana para evoluir e os últimos são mais rápidos. Por isso algumas mulheres ficam horas em trabalho de parto. Na verdade elas estão apenas esperando a dilatação, mas a hora da fase ativa (de fazer a força para empurrar o bebê) que é só depois que você atinge dez centímetros, vai apenas de vinte minutos a duas horas.  Se o bebê não nascer em duas horas, eles partem para outra alternativa. E enquanto está tudo bem com a mãe e com o bebê, que é monitorado constantemente, não há motivo para intervir nessas cinco, dez, doze, vinte ou mais horas.  Logo as vinte horas em trabalho de parto começaram a fazer sentido. E como você vai passar essas horas, relaxada na cama ou aguentando o tranco das dores das contrações, é opcional tanto aqui como no Brasil, com ou sem anestesia.

E a teoria de um centímetro de dilatação a cada hora também não funcionou comigo. Naquela segunda-feira, durante minha consulta de 40 semanas, eu estava com apenas um centímetro de dilatação. Ao chegar no hospital na madrugada da segunda-feira seguinte, com 41 semanas de gestação, eu estava com quatro centímetros. Passei de 40 a 41 semanas de gestação tendo contrações fracas e irregulares diariamente. No domingo a noite, véspera de completar as 41 semanas, por volta das 18h, elas ficaram regulares - vinham a cada seis minutos. Às três e meia da manhã, depois de assistir um filminho com meu marido, resolvemos ir para o hospital. Foi apenas às 11 da manhã que cheguei aos cinco centímetros de dilatação, às 14h que cheguei aos seis centímetros, às 15:55 horas aos sete centímetros e às 16h cheguei aos dez centímetros. Minha filha nasceu nesse dia às 16:21. Ou seja, levei uma semana para dilatar os primeiros quatro centímetros, algumas boas horas para dilatar mais três, e cinco minutos para dilatar os outros três finais.

Aquele dia foi magnífico. Optei pela anestesia e passei horas super agradáveis com meu marido no quarto enquanto aguardávamos ansiosos pela Luisa. Ríamos, cochilávamos, conversávamos e fazíamos planos juntos. A equipe sensacional, humana e competente  me proporcionou um parto do jeitinho que queria, seguro, eficiente, humanizado, emocionante e acolhedor. Quando conto para as pessoas que no dia seguinte eu queria tudo de novo, ninguém acredita.

Tenho certeza que se eu estivesse no Brasil, eu terminaria com minha barriga aberta pelas horas que levei para dilatar ou por qualquer outra desculpa que pudessem inventar. Por medo do processo, por não saberem monitorar o bebê durante o trabalho de parto, por falta de anestesista que saiba conduzir uma gestante, e/ou por conveniência pessoal e financeira, os médicos convencem as mulheres brasileiras que cesariana é mais seguro. E não é. Há consenso mundial que o parto normal é mais seguro e saudável tanto para a mãe quanto para o bebê.

As mulheres brasileiras estão sendo privadas do momento mais especial de suas vidas. Não senti dor nem durante as contrações e nem durante os vinte minutos de força que tive que fazer para minha bebê nascer. Senti apenas felicidade infinita pelo privilégio que pude ter.

Pude ser a primeira pessoa a tocá-la na cabeça, antes mesmo de ela terminar de nascer.

Pude segurá-la em meus braços enquanto ela chorava pela primeira vez

Pude segurar na mão dela enquanto ela abria os olhos pela primeira vez e olhava diretamente para os meus.

Pude aquecê-la com meu corpo enquanto os procedimentos eram feitos.

Pude amamentá-la durante seus primeiros minutos de vida e tê-la em meu colo nas suas primeiras horas de vida.


                 

Para vocês terem uma idéia do contraste com o Brasil, quando perguntei ao meu médico, por curiosidade, da possibilidade de cesárea eletiva aqui, ele me respondeu que sim existe, mas que se eu optasse por isso, ele me ligaria todos os dias para tentar me convencer do contrário.

Hoje, quando vejo dezenas de conhecidas postando no facebook fotos de seus filhos enrolados num paninho de longe e elas com as mãos amarradas atrás de um pano verde enorme, fico com angústia só de pensar que voltaremos ao Brasil e minha segunda gravidez pode terminar desse jeito.

19 comentários:

  1. Gostei muito das informações que você forneceu; acho que pode ajudar muitas futuras mamães. Parabéns! Além disso o blog está com um bom visual e gostoso de ler. Bjs. Lidia

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    1. Oi, Lidia. Que bom que gostou do blog. Espero mesmo poder ajudar algumas mamães. Obrigada. Beijos

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  2. Olá Patrícia, tudo bem? Que descrição bonita você fez. Também faço parte do grupo que sonha com o parto normal e, também, vou fazer meu primeiro parto nos EUA. Vamos para lá no segundo semestre e pretendemos encomendar nosso bebê ano que vem. Onde você teve sua filha? Em qual estado e hospital?
    Abraços,
    Kellen

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    1. Oi Kellen. Obrigada e que bom que gostou. Moro na philadelphia no estado da Pennsylvania. a Luisa nasceuno Pennsylvania Hospital. Onde vao morar? Se precisar de mais dicas pode contar comigo. Beijos

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  3. Que blog mais lindo! E a carinha da bebe olhando pra vc!? Emocionante. Eu moro nos Estados Unidos ha um ano e percebi o quanto eles preferem parto normal aqui. No Brasil os médicos pressionam as grávidas a fazerem cesária pelo comodismo. Minha amiga decidiu pela cesária depois que o médico disse "e se o seu marido estiver trabalhando na hora do parto? Com a cesária vc pode se programar e ele vai estar lá" um absurdo! Eu quero parto normal. Seu texto está perfeito, é exatamente assim no Brasil, infelizmente.

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    1. Nossa, indicar cesária pelo risco do marido estar trabalhando é o cúmulo. É por isso que o Brasil é campeäo em cesarianas. Que bom que gostou do texto, espero vë-la sempre aqui.
      Paty

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  4. Não sou mãe, mas sou partidária do parto normal sem nenhuma dúvida! Mas aqui no Brasil realmente é difícil, porque você tem de lutar contra a cultura estabelecida. Como diz uma amiga minha, a escolha do tipo de parto é da mulher, desde que ela escolha a cesaria, porque se decidir pelo normal vai ter de brigar muito pra conseguir. Triste...

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    1. Triste mesmo e estamos longe de reverter essa situaçäo. Espero vë-la sempre aqui pelo blog!
      Paty

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  5. Mto legal sua história! Eu sempre quis parto normal e tinha medo dessas histórias de q os médicos convencem à cesária. Por isso qdo engravidei procurei um médico q é adepto ao parto normal. Sim, eles ainda existem aqui no Brasil! Claro q não são de convênios, mas tb não custam um absurdo (o meu pelo menos). Infelizmente a minha filha não colaborou mto e decidiu ficar sentada até o os últimos segundos..rs. Por isso, tive q fazer cesárea. Mas o meu médico foi sensacional, a cada consulta uma aula sobre parto e tudo q poderia acontecer.. Aqui tb é possível, com o medico certo!

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    1. Com certeza equipe boas e a favor do parto normal ainda existem no Brasil, mas infelizmente näo é a maioria. Mas muito bom que exista a cesária para casos de necessidade, como o seu, garantindo que esses bebës nasçam saudáveis näo é?
      Obrigada e espero ve-la sempre por aqui.
      Paty

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  6. É realmente gritante a diferença, fiz cesárea, pq era difícil o parto normal, pq não tive dilatação, pq tudo foi um problema na hora do parto da Lari. Resultado da cesárea: fiquei dopada e só pude ver minha filha 8 horas depois dela ter nascido! Não sou contra a cesárea em casos que exista um risco pra mãe ou pro bebê, sou contra a banalização desta cirurgia. Aqui é difícil lutar contra a cultura da cesárea, contra a pressa de alguns médicos. Quero muito outro bebê e com toda certeza de parto normal!

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    1. Eu também näo sou contra cesária. Muito pelo contrário. Acho que ela salva vida de muitas mäes e bebës. Mas acho que as mulheres optam por cesária pois tem uma visäo distorcida do parto normal, como algo sofredor e arriscado, criada por interesse pela própria equipe médica, náo é?

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  7. Comparacoes desnecessarias, apesar do bom contexto.

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    1. Patrícia De Bortoli21 de fevereiro de 2014 18:10
      Olá Nely! Gostaria de entender um pouco melhor seu ponto de vista. Será que você poderia por favor explicar um pouco o porque achou desnecessario? Obrigada!

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  8. Olá gostei muito de seu, artigo pretendo viajar para os estados unidos em breve porem temo que meu filho venha a nascer no período que permanecerei no país, já tive dois filhos todos parto normal e segundo meu médico esse também sera normal. Minha maior preocupação é com o preço pois não tenho seguro internacional, e ouvi dizer que não tem serviço maternidade gratuito nos EUA, você poderia me dar uma dica por favor. Att, Kelly

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  9. Desculpe a indiscrição mas quanto custa pra ter um parto normal ai nos EUA? Obrigada

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    1. Minha amiga teve bebê semana passada aqui na California, parto normal e ela não tem nenhum plano!
      PN $10.000,00
      Diária $2.050,00
      Medicamentos $650,00
      Uma fortuna, esses valores são os daqui, de outros estados não faço idéia, abraços!

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    2. Minha amiga teve bebê semana passada aqui na California, parto normal e ela não tem nenhum plano!
      PN $10.000,00
      Diária $2.050,00
      Medicamentos $650,00
      Uma fortuna, esses valores são os daqui, de outros estados não faço idéia, abraços!

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  10. Patrícia por favor, preciso da tua ajuda quanto as custas que tu teve com o parto, gostaria de ter em Orlando.

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